IPCA, juros e cenário 2026: o que o primeiro dado do ano revela sobre a economia 

O começo do ano é quando o mercado zera o odômetro e pergunta o básico: a inflação está convergindo de verdade ou só tirou férias? O primeiro pacote de sinais vem de três frentes: 

  1. A prévia do IBGE (IPCA-15) de dezembro, que fecha o ano com uma leitura adiantada de tendência.  
  1. O Boletim Focus do Banco Central, que mostra onde as expectativas estão ancorando (ou escapando).  
  1. A comunicação do Copom, que define o preço do dinheiro e, na prática, o custo de carregamento do Brasil.  

A leitura combinada desses três pontos é o que mais importa para renda fixa, crédito e curva longa no 1º trimestre. 

1) Leitura detalhada do IPCA de dezembro e o fechamento do ano (com o que já está na mesa) 

1.1 O que o IPCA-15 de dezembro já diz sobre “o fechamento” de 2025 

O IPCA-15 de dezembro veio em 0,25%, acima de novembro (0,20%), e fechou 2025 em 4,41% (acumulado no ano).  

Esse número é importante por dois motivos: 

  • Ele está dentro do intervalo de tolerância da meta (limite superior de 4,5% para meta de 3% com banda de 1,5 p.p.), então evita a narrativa de “estourou a meta” no agregado.  
  • Ao mesmo tempo, 4,41% ainda é inflação alta para um país com meta de 3%. Então não dá para vender como vitória, dá para vender como passo na direção certa, mas sem comemoração. 

1.2 O que está por trás do número (qualidade da inflação, não só o headline) 

Aqui é onde muita análise de mercado escorrega. Um IPCA de 0,25% pode ser: 

  • bom, se for queda de núcleo e desaceleração espalhada 
  • ruim, se for núcleo pressionado e queda concentrada em item volátil 

O próprio Copom vem batendo na tecla de que núcleos seguem acima do compatível com a meta há meses e que serviços têm inércia maior, especialmente com mercado de trabalho ainda firme.  

Ou seja, a pergunta certa não é quanto deu o IPCA-15, é: 

  • quanto disso é inercial (serviços) 
  • quanto é volátil (alimentos, combustíveis, passagens) 
  • e qual é o grau de disseminação (quantos itens subindo) 

No IPCA-15, o sinal qualitativo é: a prévia ajudou na narrativa desinflacionária, mas não resolve a parte dura do problema, serviços e expectativas.   

2) Implicações para a política monetária no 1º trimestre de 2026 

2.1 O mapa mental do Copom: o que precisa acontecer para o BC aliviar 

A lógica do Copom, explicitada em atas recentes, é bem direta: 

  • expectativas desancoradas aumentam o custo da desinflação 
  • inflação de serviços e núcleos são o coração do problema 
  • política fiscal e prêmio de risco contaminam a curva longa e a própria inflação via câmbio e expectativas 

Isso aparece de forma recorrente na ata do Copom: postura significativamente contracionista por período bastante prolongado e foco em reancorar expectativas.  

2.2 O que o Focus de janeiro está dizendo sobre 2026 

No Focus de 02/01/2026, o mercado está com: 

  • IPCA 2025: 4,31% 
  • IPCA 2026: 4,06% (leve alta na semana) 
  • Selic 2026: 12,25% 
  • IPCA curto prazo (mensal): dezembro 0,37%, janeiro 0,36%, fevereiro 0,53% 
  • inflação 12m suavizada por volta de 4,02%  

Tradução para o 1º trimestre do ano: 

  • o mercado projeta desinflação gradual 
  • mas ainda com inflação acima da meta por um bom tempo 
  • e com cortes de juros embutidos para 2026, mas não de graça 

Essa combinação costuma gerar o seguinte comportamento do BC: cortar só quando tiver confiança, e não quando o mercado estiver ansioso

2.3 O que é o cenário base para o 1º trimestre 

Cenário mais provável, dadas as informações disponíveis: 

  • Selic alta por mais tempo, com comunicação dura, mantendo a âncora no curto prazo  
  • curva reagindo muito mais a fiscal e prêmio de risco do que a um IPCA bom isolado 
  • decisões dependentes da sequência: serviços, núcleos e expectativas 

3) Como isso impacta renda fixa, crédito estruturado e curva longa 

3.1 Renda fixa: a diferença entre ganhar dinheiro e só não perder 

Com juros altos, é fácil se acomodar. O detalhe é que o retorno relativo entre estratégias muda muito com o tipo de inflação

Pós-fixado (CDI/Selic): 

  • bom quando a política monetária fica restritiva por mais tempo 
  • é a escolha anti arrependimento quando a trajetória de cortes é incerta 

Prefixado

  • depende de quando e quanto o mercado acredita no ciclo de queda 
  • funciona melhor quando a desinflação é consistente e o risco fiscal não sabota a curva 

Indexado à inflação (IPCA+)

  • brilha quando o mercado paga prêmio real alto 
  • e também quando o investidor quer proteção contra reprecificação de expectativas 
  • mas sofre se o fiscal estressa e o juro real abre demais no meio do caminho 

O Focus está sinalizando inflação ainda acima do centro da meta em 2026, então proteção inflacionária segue relevante em alocação estrutural, especialmente para prazos maiores.  

3.2 Crédito estruturado: aqui o macro vira micro, e a estrutura faz diferença 

O Copom vem descrevendo moderação no crédito, com elevação de juros e inadimplência e atenção ao comprometimento de renda das famílias.  

Isso é um recado direto para crédito estruturado: 

  • a janela é boa, porque o carrego é alto 
  • mas o risco de cauda aumenta se a atividade desacelerar mais do que o previsto 

O que tende a performar melhor nesse ambiente: 

  • estruturas com colateral forte, covenants, senioridade clara 
  • originação com spread que remunere risco de liquidez e de ciclo 
  • diligência “sem romance” em fluxo de caixa e garantias 

Em outras palavras, 2026 começa com um velho clássico: crédito bom é o que você consegue explicar no detalhe quando o mercado vira, não o que fica bonito no pitch. 

3.3 Curva longa: o jogo é prêmio de risco, não só inflação do mês 

A curva longa (juros de prazo maior) é sensível a: 

  • fiscal e sustentabilidade da dívida 
  • prêmio de risco 
  • cenário externo e câmbio 

O Copom explicitamente liga política fiscal ao prêmio a termo da curva e à dinâmica de inflação.  

Então, mesmo que a inflação melhore na margem, se o fiscal piorar, o juro longo pode abrir

4) O que o primeiro dado do ano realmente revela 

Ele revela menos o número e mais o regime

  • regime de juros ainda restritivo 
  • desinflação em andamento, mas com componentes inerciais resistentes 
  • mercado precificando queda de Selic em 2026, porém sem margem para erro na comunicação do BC 

E aqui entra o ponto de posicionamento da Acura: o valor não está em repetir manchete, está em traduzir mecanismo macro em decisão prática, com técnica e clareza. 

Sobre a Acura Capital 

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